Nunca fui fã de Amy Winehouse, apesar de reconhecer seu talento. A sua tentativa de fazer um show em São Paulo foi das coisas mais patéticas que já presenciei em se tratando de eventos musicais.
Ainda sim, senti aquele leve baque de tristeza e pena com a notícia. Sentimentos que se esvaíram logo que acessei a internet para ler a inevitável resenha virtual, naturalmente concentrada no velho debate (por falta de melhor palavra que faça justiça às discussões on-line) sobre drogas.
É nesse momento que a tristeza dá lugar ao desapontamento e fica difícil fugir do assunto. Continuamos a pautar a vida no falso moralismo e preconceitos incutidos em nossa mente sabe lá a história por quais motivos e interesses. Não chega a ser nem engraçado ver os bêbados inveterados amaldiçoando os “drogados” com austeridade e consciência plena de que o álcool que eles tanto adoram não é droga. Pedem porrada, prisão e a saideira. E não enxergam o óbvio: discriminação e repressão ao usuário nunca resolveram o problema. Não cabe discussão, é um fato estatístico triste. Tão triste quanto ver uma sociedade – a partir de agora, mais especificamente, a brasileira – encher o peito (e os bolsos) para dizer-se cristã, mas virar as costas ou sentar a borracha no viciado como se este fosse bandido apenas por usar suas drogas à surdina e não no bar.
É a mesma lógica (?) que faz o pai repreender o filho ao encontrar maconha na gaveta e depois irem ao boteco fazer as pazes, deixando a seguinte mensagem: você pode usar drogas, desde que sejam as legais, as que eu uso. Esse pai não é mau sujeito, é também vítima da desinformação manipulada. Quando ele nasceu, os tabus e as regras políticas e econômicas já estavam estabelecidos de acordo com os interesses de quem os inventou e usou o poder para consolidar o status quo conveniente, sustentado, entre outros artifícios, por clichês absurdos. Como aquele que diz que a maconha é porta de entrada para outras drogas. Mentira. A porta que leva às drogas é a de casa. Assim que ela é aberta em direção à rua, o filho está livre para experimentá-las. E aí é tentar ficar de olho (tentar é o máximo, não se iludam) e rezar para que ele não se vicie em nenhuma delas, ilícita ou não.
Melhor seria se ele tivesse a informação precisa e honesta para fazer suas escolhas com mais consciência. Mas ainda tentam controlar a juventude através da cultura do terror e de regras autoritárias que o jovem anseia quebrar. É tudo que ele quer: transgredir, chocar, experimentar ou fugir dos problemas sobre os quais não tem consciência. E talvez Amy tenha desejado tudo isso, mas quem é o bêbado de ressaca no twitter para julgar a opção dela? Por acaso ele não está correndo riscos também?
São óbvias as diferenças entre os tipos de droga e é natural querer distância daquelas que nos assustam ou não nos agradam. Afinidade é base das relações em todas as esferas sociais. Mas achar que o vício do outro define o caráter só por não satisfazer nosso gosto pessoal e que por isso ele merece desprezo ou cadeia é assumir a hipocrisia que impera desastrosamente no tratamento desta questão.
Seria ousado propor aqui qualquer solução definitiva – legalizar tudo, por exemplo –mas estou tranquilo em afirmar que, do jeito que está, está errado. Fatos e números mostram isso. Que cada um pague por suas escolhas, mas que estas sejam feitas em um contexto social mais justo e verdadeiro, com mais informação – e tratamento se for o caso – e menos cassetetes políticos, pelo menos no que diz respeito ao usuário.
Se o destino de Amy seria diferente em outro cenário, menos repressor e mais verdadeiro, nunca saberemos. Contudo, a sua morte e de tantos outros anônimos todos os dias deixam claro que é preciso repensar, debater e tentar algum avanço em vez de ficarmos submissos aos interesses dos urubus reacionários e moralistas. Pelo menos dessas drogas, Amy Winehouse está livre. Boa noite, cinderela.

5 comentários:
Quem vivi no mundo das drogas não vivi, não dorme, não come... tudo parece perdido, sem luz, sem foco... é uma verdadeira Droga de Vida!!!
Boa noite Amy.
Bárbaro seu texto!
As pessoas se prendem muito às regras ao invés do motivo por trás delas.
Regras saudáveis, quando quebradas, trazem consequências ruins por si só e alguém poderia dizer que então é melhor que deixe que cada um enfrente as consequências pelos próprios atos.
O problema é que algumas consequências são graves demais. E provavelmente algum limite tivesse que ter sido importo antes. É por isso que existem leis. Ainda que tortas e mal elaboradas.
Concordo, é totalmente incoerente proibir um tipo de droga e liberar outro.
Álcool também é extremamente prejudicial à saúde e isso é pouco divulgado.
*deixe que = deixe-se
*imposto
:P
*deixe-se cada um efrentar
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