
É possível enxergar nuances da alma de um povo pela maneira como ele trata seus ídolos. No dia 7 de junho, Ronaldo despediu-se da seleção. Emocionante, mas merecia mais. O que me fez analisar que a relação dos brasileiros com o craque durante sua carreira – encerrada em uma festa fria e sem brilho – evidencia um dos aspectos mais negativos da nossa moral: a incapacidade de aceitar, admirar e conviver com o sucesso e a riqueza.
Em seus tempos de extraterrestre, Ronaldo flertou com a unanimidade. Era um titã inquebrável, invencível. A grande esperança da Copa de 98. Sabe-se lá o porquê, passou mal à véspera da final. Perdemos. “Ganha milhões pra jogar bola e ainda “pipoca” na hora H?”, ouvia-se à época. O ressentimento pela derrota enganchava-se à situação financeira do herói e o transformava em vilão. Como se o corpo entendesse a linguagem dos negócios e nas veias corressem cifrões, em vez de sangue. O fenômeno virou amarelão para logo em seguida contundir-se gravemente. Daí passou a bichado, podre, ganhando uma fortuna para não fazer nada, quando de fato sofria com dores e incertezas angustiantes em hospitais e salas de fisioterapia. Nesse meio tempo, sentiu-se forçado a desfazer-se da Ferrari que comprou e exibiu no Fantástico, tantas foram as críticas. Não joga, não faz gol e ainda nos humilha desfilando de carrão? Não pode.
Recuperou-se e nos deu a Copa de 2002. Foi tema de campanha do governo e teve o corte de cabelo imitado por milhares de crianças Brasil afora. Seus milhões já não eram mais um agravante. Estava perdoado. Anos depois, contundiu-se novamente e sucumbiu aos apelos da gula e da luxúria. “Como pode, milionário, era pra ter qualquer mulher do mundo e vai parar no motel com travestis?”. Realmente, foi uma escolha de péssimo gosto e pouco inteligente pelo risco que corria. Mas desde quando impulsos sexuais reconhecem classe social? O que o dinheiro tem a ver com fantasias ou fetiches? Eis que Ronaldo novamente se recupera, volta a jogar com razoável eficiência, mas agora não tem mais jeito. Para alguns brasileiros, é o gordo, balofo, pegador de travestis. Sua imagem ainda é forte, rentável, o fã clube é enorme, mas o Brasil nunca o amou incondicionalmente.
Ainda na esfera futebolística, temos a história de Garrincha. Como Ronaldo, Mané foi um gênio da bola, trouxe- nos alegrias e encantou o planeta. Fora de campo, era um desastre, um péssimo exemplo. Terminou a carreira e a vida de forma melancólica. Alcoólatra, irresponsável, morreu corroído pela bebida, deixando os filhos na miséria. E mesmo assim veneramos e preservamos Garrincha incondicionalmente, o anjo imaculado sobre o qual só cabem elogios.
Mas, se os dois foram craques, venceram e tropeçaram, por que a diferença no tratamento? Está na cara. Garrincha tinha o que gostamos de chamar de a cara do povo brasileiro. O sorriso brejeiro, o jeito de fome, de vira-lata simpático, o coitadinho carente de cuidados e bolsa-família. Ronaldo, apesar de seu carisma, é um ídolo abastado, que não precisa de piedade e por isso somos tão cruéis com ele.
Porque ainda preferimos a miséria à fortuna. Cultivamos um lado senzala da alma que enxerga na riqueza uma afronta, no rico um opressor e no lucro um pecado. Prejulgamos e condenamos os afortunados, vigiando e tripudiando em cima de seus tropeços. Torcemos pela queda dos bem-sucedidos – e assim nos sentimos menos medíocres – mas gostamos de acariciar e exaltar nossa miséria, como se só existisse felicidade e dignidade nos programas da Regina Casé. Temos orgulho do nosso sorriso sem dentes e uma raiva velada de carrões e jatinhos. Vale a reflexão. Vivemos um momento privilegiado e não podemos perder a oportunidade. Desde que todos tenham acesso ao básico – saúde e educação – qual o problema em perseguir a riqueza de forma honesta? Tem pra todo mundo. Mais do que estradas e aeroportos, precisamos desenvolver a mentalidade, tirar os dois pés da senzala, ou travaremos sempre nesse ranço servil. Está na hora de decidirmos se seremos um Brasil de fenômenos, ou um Brasil de manés.

1 comentários:
Estou estática. Sem palavras. Parabéns! Obrigada por nos presentear com texto tão bem escrito que nos fazem refletir por alguns dias.
Bjins e uma ótima noite.
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