
No meu quarto há uma moldura da vista da Guarda do Embaú. Quando fui ao sul, não tive a chance de conhecer o lugar, mas quase todos os dias eu dou uma fugidinha pra lá. Penso que a inteligência está no convívio, não no isolamento, mas há horas que a vontade de sumir é dominante, aí eu vou pra Guarda curtir uma saudade. Saudade do tempo em que o medo maior era da falta de perspectiva e de oportunidades. Bons tempos. Porque hoje a coisa mudou. Viramos reféns da burrice e da perturbação emocional. Estamos acuados.
O cerco principal é formado por alguns chatos de galocha organizados em ONGs e grupelhos em defesa de uma causa qualquer e que na falta de algo mais produtivo para fazer ou de motivos realmente plausíveis para se injuriarem, patrulham tudo e todos na busca de uma brecha que lhes permita algum manifesto radical e barulhento. Desconsideremos a minoria séria para falar dos hipócritas travestidos de politicamente corretos, peritos em deturpar palavras alheias para poderem etiquetar rótulos pejorativos – racista, xenófobo, homofóbico – naqueles que expressam gostos, opiniões ou brincadeiras supostamente ultrajantes às suas bandeiras, como já havia abordado de passagem no último artigo.
Piadas e sátiras inteligentes, nem pensar. A ironia e o sarcasmo estão condenados à extinção. Tudo pode virar ofensa. Principalmente se o mote abordar as chamadas minorias, muitas vezes mal representadas por ideólogos do lugar nenhum, nem tão coerentes assim: o gay que se ofende e protesta contra a sátira estereotipada na TV é o mesmo que a vida inteira riu das piadas de português e não perde a chance de zombar os gordinhos. E vice-versa. Só dói quando é no próprio calo. Mas assim somos todos nós, seres humanos, certo? Defendemos o nosso e dane-se o resto. E não é exatamente o que estou fazendo aqui? Falando pelos que estão de saco cheio dessa nova consciência social melindrada e dicotômica – preto ou branco, esquerda ou direita, rock ou pagode – que nos obriga a medir cada gesto ou palavra, sem direito a deslizes, experimentos, provocações ou ao menos meios termos, sob o risco de sermos moralmente fuzilados – ou judicialmente processados – pelos sentinelas da opinião e do comportamento, atentos a cada vírgula, castrando a criatividade, o bom humor e a autenticidade em nome da causa, seja ela qual for. E que a cada dia tornam mais curta a saudável distância entre a brincadeira, a opinião justa, bem colocada e a ofensa verdadeiramente discriminatória ou desrespeitosa.
Este cerco dos porta-bandeiras hoje encontra seu maior reforço na internet e seus zilhões de analfabetos funcionais com mouse na mão e tempo de sobra para dejetar seus pontos de vistas limitados e mal elaborados acerca de qualquer assunto, protegidos pelo anonimato ou pela inviabilidade do debate presencial. É neste ambiente dominado por despreparados que ecoam os chiliques ressentidos dos politicamente pé-no-saco que, mal-intencionados, miram o alvo e espalham seus faniquitos na rede por saberem que, em questão de minutos, estará criada a polêmica injusta e covarde.
E mesmo quando não há manobra de ataque pré-elaborada, surgem espontaneamente os já rotineiros linchamentos virtuais oriundos da pura incapacidade interpretativa daqueles que só entendem ironia se esta vier com legenda e enxergam afronta e desrespeito em qualquer piadinha despretensiosa, em opiniões que fujam do lugar comum ou mesmo quando uma verdade não conveniente lhes é exposta em tom mais incisivo. É gente que tem o dom de discordar do que não foi dito nem escrito, e que não resiste à tentação de participar e palpitar mesmo sem conhecimento de causa, ávidos por alguns replys ou retweets de atenção – a incontrolável necessidade de ser notado. No fundo, tanto os melindrados quanto os despreparados, talvez mais do que defender ideais e convicções, querem apenas se sentir presentes, inseridos, atuantes.
Este é o lado ruim da internet. Ela expõe nitidamente o desprovimento intelectual e a carência emocional do ser humano moderno – independentemente de classe social, vale frisar – e torna-se a grande propulsora desta cultura vigilante do politicamente correto. O lado bom é que a qualquer momento eu posso receber e-mails com promoções para a Guarda do Embaú.
Neizz

3 comentários:
Ironia se responde com ironia.
Quanto a causas sérias, não tem o direito de reclamar quem não apresenta uma solução melhor.
Bruno lí uma reportagem sua e me deu vontade de convida-lo para um curso transformador. O assunto principal é o auto-conhecimento, é um trabalho voluntário muito profundo.
Para você saber mais informações www.cursodegnosis.net -- em vista dos assuntos que abarca é provável que interesse muito a você.
'...na internet e seus zilhões de analfabetos funcionais com mouse na mão e tempo de sobra para dejetar seus pontos de vistas limitados e mal elaborados acerca de qualquer assunto, protegidos pelo anonimato ou pela inviabilidade do debate presencial.'
Sabe Bruno, eu achava que preconceito racial nunca me atingiria, já que eu lido bem com o fato de ser negra, faço piadas e coisa e tal. Mas um ser travestido de pessoa começou a me inundar de insultos e palavrões por uma rede social.
Eu não me irrito por tão pouco. Uma piada é só uma graça, mas falta de respeito é tão mais pesado. Se eu tivesse encontrado esse ser pessoalmente, seria capaz de dar 300 mil tapas para que o mesmo criasse vergonha na cara pra dizer o que quer que seja pessoalmente e pra que virrasse gente, pq taca resolve, mas só se for muita.
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