
Em contrapartida aos incontáveis e inegáveis benefícios proporcionados pela revolução da internet, sofremos com outros imensuráveis reflexos nem tão positivos assim. Agora temos em mãos uma maneira prática e barata de fomentar a vaidade fingindo ter autenticidade, negritando para o mundo inteiro nossos pontos de vista que, quanto mais curtos e radicais, mais atenção receberão, pelo menos parece ser este o consenso. Seja qual for o tema, você precisa ser contra ou a favor e, se quiser ser ouvido, CAPS LOCK. O meio termo não interessa, então tome rótulo: xenófobo, misógino, homofóbico, racista, direita, esquerda. Não tenho dúvida de que a rede é a grande responsável pela expansão desta nova consciência coletiva dicotômica e melindrada, refém do extremismo das opiniões fortes e mal-humoradas que relegam à sarjeta intelectual aqueles que procuram a coerência abandonada entre o 8 e o 80.
Fale sobre o homossexualismo, por exemplo, e conte até dois para conhecer a fúria extremada dos partidários radicais da causa e dos zilhões de palpiteiros despreparados. Mesmo que você não seja homofóbico. Mesmo que seja para dizer que, do jeito que a coisa anda, o movimento gay corre o risco de amealhar antipatias e inimigos. E dizer que esfregar a opção sexual na cara dos outros passa longe de ser a melhor maneira de inserir-se socialmente, seja para o gay ou para o hétero. Bolinagem em shopping center não pega bem pra ninguém, tampouco firma posição política alguma. Esse comportamento invasivo e cada vez mais frequente é estimulado pela forma errática como certos setores da comunicação e entretenimento têm abordado a questão. A homossexualidade está se tornando um produto, um modismo banal embalado por um falso viés ideológico, quando poderia ser discutida de forma séria e educativa – este, sim, o melhor caminho para a tolerância. Opção sexual não se discute, aceita-se, mas se é para debater, que seja saudavelmente.
Quem sabe assim todos poderão entender que respeito e igualdade são baseados na reciprocidade. Se por um lado deve-se combater a homofobia, que é deplorável, há também de se respeitar a opinião e a desconfiança de quem simplesmente não compreende com naturalidade as escolhas alheias por razões tão complexas e enraizadas quanto a própria orientação sexual de cada um.
E se isso não faz sentido, por que então existem gays que reprimem certos gestos afetivos em público, por exemplo, por entenderem ser este um obstáculo cultural real? Estes inteligentes – mesmo sentindo-se injustamente tolhidos de seus impulsos –entendem que a afronta e a provocação apenas reforçam o estereótipo e em nada contribuem para a conquista da merecida tolerância. Tenho por mim – e esta é uma visão bastante particular – que gays, entre vários outros predicados, tendem a ser pessoas articuladas, carismáticas e de senso de humor aguçado. Não me faltam exemplos para defender este ponto de vista. Mas alguns preferem atirar no próprio pé quando, em troca de atenção, permitem-se ser tratados como produto de um modismo midiático, deixando de apresentar qualidades cativantes para enquadrarem-se no estereótipo adorado pelo preconceito. Se somos todos iguais em direitos, por que fazer questão de mostrar que a opção sexual é diferente?
Modismos geram excessos, acirram retaliações e podem voltar ao esquecimento sem nenhum ganho real. Virou mania dizer (e acreditar) que o mundo é gay. E não é. Ele é dos gays, héteros e vários outros gêneros inventados a cada semana. De fato, algumas mudanças de paradigma só acontecem se fomentadas pelo exagero revolucionário, mas aqueles que levantam bandeiras também precisam aceitar que nem todo mundo é obrigado a sentir-se à vontade vendo mastros trançando à sua frente.
Neizz

2 comentários:
Muito bom o seu texto.
Contudo, ouso discordar veementemente.
Você está no comodismo banal, aquele que explica tudo com o simples motivo: a sociedade não está preparada. Ó, que dó.
A questão de todo movimento contra o preconceito, movimento das minorias é justamente a de integrar. E ninguém é "meio" integrado na sociedade.
Você não precisa se sentir a vontade "vendo mastros trançando à sua frente". E isso não importa. Como você se sente não faz a menor diferença. Você se sente como quiser! É direito seu. Mas, eles têm o direito de trançar onde for.
Volte para a História mundial. Fala-me de uma integração social que não "chocou"?
E, hoje em dia, são direitos simples, inquestionáveis.
ex: mulheres de calças.
Divórcio.
Mulheres trabalhando.
Filhos ilegítimos (antigos bastardos) que hoje são iguais aos legítimos.
Casais de brancos e negros.
E, ó, a sociedade, sobreviveu! Q bonito...
O que quero dizer é que é muito fácil continuar como está, o comodismo é simples. Contudo, a mudança, olhar para um ser diferente em toda a sua expressão e respeitá-lo, é difícil. Logo, preferimos não ser "provocados" por casais gays de mãos dadas, ou por um travesti andando no shopping e por aí vai. O comodismo é fácil. Esse deveria ser o título do seu texto, com todo o respeito.
Isso não é goela abaixo. Pode ser para alguns, que não tentam aceitar e preferem que os diferentes não se expressem, para que “os iguais” não sejam incomodados. Mas, para o “diferente”, ele simplesmente está sendo como sempre foi, sempre se sentiu, a intenção não é agredir ninguém, forçar ninguém a nada, a intenção é SER. Como todo mundo é, é viver, como todo mundo vive. SIMPLES.
Você falou de gays inteligentes, que não demonstram afeto porque a sociedade não está preparada. Eles não estão preocupados com isso. Eles se preocupam em não sofrerem agressões. Foda-se a sociedade. Afinal, por causa dela que ainda há tanto sofrimento, tantos meninos e meninas na puberdade que já se sentem diferentes e sofrem tanto.
Falta para a sociedade empatia. = se colocar no lugar do outro.
Por isso, eu acho tão interessante a ideia de reencarnação, mas isso é outra história....
Enfim, fica a dica.
Bruno esse texto é perfeito. Tentei copiar um parágrafo ou uma frase mas era só selecionar e continuar lendo para que eu entendesse que cada linha que se sucedia era mais lúcida e clara que a antecessora.
Uma questão complexa que como bem você detectou é na maioria das vezes discutidas pelas 'internetes' da vida moderna, com o conhecimento raso que os "palpiteiros despreparados" tem, na maioria das vezes, sobre o assunto. Não estou me caracterizando como apto para manter uma discussão desse assunto, mas percebo que só o fato de externar minha opinião (sou contra a institucionalização da homossexualidade, transformando-a inclusive em matéria integrante da grade curricular das escolas de ensino fundamental) me rotulam imediatamente como homofóbico e me ameaçam com o perigo de que minhas palavras possam trazer-me problemas na justiça. Um absurdo!
Sou contra o preconceito, mas não sou à favor da disseminação da prática da homossexualidade. Que cada um opte por sua conduta nesse campo, mas não quero que ensinem na escola para meus filhos de 7 a 14 anos (ou mais até) que a homossexualidade é um comportamento modelo, comum (não vou nem dizer nem normal).
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