sexta-feira, 25 de março de 2011

O túnel


Eram amigas, obviamente. À cabeceira, estava a homenageada. Nada sugeria uma festa ou coisa do tipo, mas ele, com toda sua experiência, de imediato entendeu a confraternização na mesa ao lado. Senhoras elegantes aquelas. As costas empertigadas no limite charmoso da presunção, cabelos e joias tão sutis quanto o tom das conversas paralelas.

De novo, o peito agulhava de saudades! Aquilo sim era sofisticação. Sentava à mesa de presidentes com a mesma naturalidade que dividia cervejas em copos de plástico no churrasco dos funcionários da empresa. Ensinara muitas coisas a ele, que nunca fora muito ligado nestas tais coisas. Certa vez, disse-lhe que o verdadeiro glamour não está no brilho, mas na autenticidade que permeia sua sombra e só os realmente requintados são capazes de perceber. Aparecer – dizia – todo mundo consegue. As receitas estão aí para serem copiadas e compradas. O difícil é mostrar sem precisar mostrar. Ter classe é chamar a atenção pela discrição, harmonizar-se com a aparência sem ser ofuscado por ela. Somos nós que controlamos os gestos e não o contrário. Acreditar – e praticar – que menos é mais.

De súbito, um grito histérico tragou-o bruscamente daquele delicioso túnel imagético. Devia ser o sexto ou sétimo nas últimas duas horas. A cada amiga que chegava ao jantar de aniversário, começava outro axé. Um samba de cotovelos em crise, palmas e ovações estridentes que, na tentativa de demonstrar surpresa e satisfação, só conseguiam denunciar a falsidade ensaiada, mas absurdamente consentida. Algumas chegavam magérrimas e saíam meio gordinhas. É possível que as costas sejam uma parte do corpo feminino que elas não devam mostrar tanto, vai saber.

Os namorados e maridos pareciam uns bobocas. Tentou, mas não conseguiu engatar um diálogo sequer. Talvez por timidez dos rapazes, engessados como bonecos de bolo de casamento, suprimidos pelos faniquitos teatrais de suas Barbies histriônicas. Não apareceu um para liderar a conversa. O primeiro que tentou foi abafado por um celular atendido aos berros - gírias do mundo fashion anunciaram a chegada de mais um casal.

Bando de inocentes. Nem para sair da linha com estilo. E lembrou-se que até nessas horas sobrava sagacidade. Perdia a compostura com inteligência. Desfrutava os deslizes e saciava todas as vontades mais infantis e obscenas de sua imaginação privilegiada. Tudo na sua hora e local, nem sempre agendados, claro.

A conta chegou à mesa ao lado. Foi dividida igualmente e sem constrangimentos, à exceção da homenageada, que não pagou. O processo não custou nem dois minutos. Ninguém esnobou por ter mais, ninguém fingiu ter menos. A seguir, as damas foram retirando-se aos poucos, com beijos e abraços curtos, nada do estardalhaço cínico e efusivo das miguxices etílicas.

Ele aproveitou para bater em retirada. Acompanhar os passos lentos e seguros das senhoras talvez trouxesse o resto de satisfação que salvaria a noite. Esperava que mais alguns segundos no desbotado túnel imagético lhe garantissem um sono alegre.

Disse adeus aos bobocas que, num surto de personalidade, despediram-se em voz alta. Beijou a filha com carinho, desejou-lhe novamente os parabéns e repetiu o clichê do juízo, no que foi prontamente respondido pela amiga mais saidinha. Pode deixar, aqui só tem gente fina e educada. Sem esconder o sarcasmo que escapava do riso preguiçoso, tomou seu rumo.

Entregou o tíquete para o manobrista enquanto observava as senhoras partirem. Com elas, ia também a nesga de leveza daquela noite, o silencioso glamour postural, o doce e misterioso charme feminino que a modernidade tratava de condenar à extinção.

Mais uma agulhada! Agora já não era saudade e não saber o que era só fez doer ainda mais. Instintivamente, como que procurando a resposta, voltou os olhos para a barulhenta mesa da filha. O alívio pelo sentimento revelado teria sido maior se não fosse tão melancólico: era pena. Era mesmo uma pena que ela tivesse ido embora mais cedo.

Neizz

0 comentários:

Arquivo do blog