
Recentemente li no blog de um amigo, o Marcelo Diogo, dois posts bem legais e de certa forma relacionados, sobre boemia e amadurecimento. Palavras com as quais a gente simpatiza pela contemporaneidade e por nos fazer refletir. Texto de opinião bom é aquele que liga o disparador de perguntas, interrogações pipocando desorganizadas na mente untada pela adrenalina quente da inquietação. Apressado, catei no ar a primeira pipoca questionadora. O que há de errado em tentar amadurecer?
Além da provocação, senti também alívio e felicidade. Felicidade pelo incentivo, aquela cutucada na moral necessária para gente ficar esperto e manter o movimento. Era alguém da minha geração que colocava ponto final nas frivolidades de outrora e, mesmo sem deixar de curtir a boemia, passava a enxergá-la com outros olhos. Alívio, por saber que ainda há gente preocupada em progredir sem fugir da idade. Sem vergonha de aparentar ser o que realmente é.
Parece estar em vigor uma espécie de contrato subliminar que proíbe o amadurecimento físico, intelectual e espiritual por tempo indeterminado. Antes fosse (e que ótimo seria!) um tratado de empenho coletivo para a infactível realização do sonho da eterna juventude – a perpetuação da vitalidade da mente e do corpo. Porém o acordo vigente é bem mais medíocre e simples de ser cumprido. Ele parece exigir apenas que os pactuantes prolonguem ao máximo a adolescência. Nossas vontades e desejos têm de ser adolescentes (nossas porque mesmo quem não assina o acordo é cobrado da mesma forma) assim como a disposição para nugacidades. Todos têm de ser pau pra qualquer obra, desserviços em geral: programas batidos e discussões supérfluas, esticadas em noites fracassadas, uma garrafa a mais, modismos infrutíferos e tudo mais que se encaixe na categoria Joelma-vai-com-as-outras (por razões pessoais, não-religiosas, evito usar o nome Maria pejorativamente).
Basta o primeiro empolgado soprar o berrante do woo-hoo para levar consigo uma boiada desenfreada ladeira abaixo. Aqueles que serenam, ponderam e estabelecem limites são os chatos, caretas, sem graça... e velhos! Talvez eu esteja limitando muito o campo da análise ao raio da minha faixa etária, mas, se a gente ampliar um pouco, vai perceber que vaidades pueris – o corpinho mais sarado, o estilo de vida da moda, a viagem mais cara, o brinquedinho mais moderno e outras tantas disputas superficiais – ainda motivam gerações bem anteriores à minha a canalizarem tempo, energia e dinheiro na busca pela aceitação social, como colegiais que procuram sua tribo na hora do recreio.
Medo de pressão e responsabilidades ou simplesmente má compreensão de conceitos? Ser jovem é diferente de ser infantil. Ou não é possível conviver, experimentar, exagerar e pisar na bola – e vacilaremos sempre- sem necessariamente fugir dos encargos da idade? Penso que jovem é aquele que se adapta aos mais diversos contextos e ainda assim preserva sua personalidade, postura e não esquece seus compromissos. É quem não deixa de cometer alguns erros ridículos ou aproveitar o lado banal da vida, mas é inteligente o suficiente para assumir as consequências e transformar as cobranças do tempo e o peso das grandes decisões na sua verdadeira diversão. Admiro e tomo como exemplo aqueles mais sagazes, que fizeram da maturidade um desafio legal, que também gera adrenalina, prazer e cujos ganhos são mais substanciais. Tudo isso sem se privarem de algumas recaídas eufóricas.
E aos defensores da liberdade individual, ansiosos para responder este texto com o discurso pronto do “cada um faz o que quer da própria vida” não há como contestar que estão e estarão sempre certos. Quem pode julgar o próximo? Mas soariam mais coerentes se deixassem os meus amigos chatos e caretas amadurecerem em paz.
Neizz

2 comentários:
Parabéns pelos seus textos.
Você sabe fazer uma reflexão de uma maneira inteligente e muito espontânea, assim nao parece como aquelas velhas lições de moral.
Valeu pela força, parceiro!
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