quarta-feira, 24 de novembro de 2010

De dentro pra fora


Não há mulher que não goste de ser bem tratada. Dizer, como se costuma ouvir por aí, que elas preferem os malandros, os difíceis ou quem as rejeita é simplificar perigosamente a questão. No fundo, ou nem tanto, elas sonham com carinho, segurança e atenção integral. O que acontece é que muitas, apesar do desejo, simplesmente não se permitem. Querem, mas não querem.

A baixa autoestima e a insegurança da mulher são itens de fábrica. A impressão é de que elas já saem do ventre berrando por uma mamadeira à base de linhaça e uma canga para esconder a bundinha defeituosa. Não me arrisco a explicar o porquê.

Daí pra frente é um pouco mais simples entender, ou pelo menos tentar. Nas palavras do poeta, a cena é triste. Infelizmente, o mundo ainda é muito machista, hipócrita e opressor. A coisa melhorou, mas está longe do justo. Não é mole desenvolver e manter a confiança em meio a tanta pressão e injustiça. Não está fácil nem para os meninos – que mesmo com séculos de vantagem estão por aí desfilando a barriguinha lipoaspirada – imagine para elas. Faltam também bons exemplos. As que são um pouquinho mais seguras que a média (ou fingem ser), em vez de ajudar as companheiras de classe, preferem dar voz ao ego histérico. Não tiram o “eu” da boca. Desdenham das outras e não despem a fantasia de Mulher-maravilha. Haja saco. Já as poderosonas de verdade, do tipo que interfere na cotação do dólar, não passam no teste de feminilidade sem antes ameaçar matar o dono do laboratório. Duvido que a Condolezza Rice lembre direitinho qual terninho ela vestia quando o primeiro míssil atingiu o Iraque.

Sem união e referências, dá-lhe cabeçada na parede. Enquanto algumas curam e aprendem com os galos emocionais, outras insistem nos erros e aí não há autoestima que dê conta. O autoboicote é um sintoma periódico. Ele é lindo, educado, me trata bem, mas falta alguma coisa, sabe? É a pessoa certa no momento errado. Eu quero o outro, o que não me quer. E lá se vai mais uma oportunidade. Existem casos onde realmente faltam aqueles ingredientes indispensáveis para o passo adiante. Mas se a situação é recorrente, vale a pena uma refletida. Os perfeitos só são perfeitos para as outras?

Pessoas bem resolvidas não rejeitam o que é bom para correr atrás de quem não faz por merecer. Quem procura problemas, rejeição e sofrimento está querendo se punir, sabe lá o divã por quais motivos. Quem não se esforça para ter o melhor é porque, em algum nível de sua consciência, acredita não ser merecedor. O amor cafajeste e turbulento é um clichê desgastado, cafona. É novela repetida. Mulher esperta não se sujeita ao descaso, não se apaixona pela indiferença.

No atual momento, em que se reclama tanto da falta de caráter e disponibilidade para o amor, aproveitar as boas oportunidades é também questão de inteligência. É melhor dar dez chances ao bom partido do que duas para o vagabundo. Dar tempo ao tempo, conhecer melhor, sentir o prazer de receber o que é tão raro: educação, fidelidade, cumplicidade, paciência. Um gente boa, a princípio insosso, pode esconder qualidades que só a intimidade irá revelar. Já o canalha inveterado só muda o tipo de canalhice.

A opção pelo dramalhão é juvenil, para ser vivida na idade própria com a inocência e irresponsabilidade de quem mente para os pais para ir à festa proibida. A certa altura da vida, o choro arrependido pela burrada anunciada deixa de ser comovente para soar ridículo. O amor, aquele que justifica lágrimas eventuais, está na paz, no que acalma e traz equilíbrio. Depois que se experimenta a tranquilidade, é inaceitável conviver com o tormento. E este amor saudável existe, basta se permitir. Basta se amar. E o que mais uma mulher precisa para se amar loucamente, se não o simples fato de ser mulher?

Neizz

8 comentários:

Erica Machado disse...

Só discordo que "a baixa autoestima e a insegurança da mulher são itens de fábrica.". Isso é aprendizado e por isso e, graças a um bom divã, podem ser desaprendidos.
Tem gente que adoece de amor. Adoece quando os preços por amar vão além dos seus limites. Tem gente que adoece da alma. E a alma fica doente quando, a partir do amor ao outro, perdemos aquilo que minha mãe sabiamente chamava de dignidade. E perdê-la, é perder tudo. Beijos, belo texto de novo!

Noh Gomes disse...

Ontem vi minha filha brincando de mulher aranha, pensei comigo, poxa vida existe isso? Não, mas na falta de super mulheres ela transformou um personagem, a ta, ela tem 2 anos. Me pergunto aonde estão aqueles bons exemplos de mulheres fortes, capazes e amavéis? Também não sei, so sei que realmente o texto é verdadeirissimo, porque se equilibrar no salto e com estria, não é para qualquer uma não, se sentir bem e boa no meio desse mundo requer muita prática e se for desde pequena penso eu que ja é meio caminho andado.

Beijos

sorriso disse...

muito bom o texto, vou recomendar para uma que conheço ou pra todas.
Geralmente as mulheres preferem as que as fazem sofre.
comenta la no meu blog.

Marcelo Scotton disse...

Bruno, acho que as mulheres tem certo apreço pelos malandros, sim. Não pelo fato de serem moralmente frouxos, mas pelas benesses que este lastro moral contribui para o relacionamento.

O ser humano vive de conquistas, e aquilo que você vive em permanente busca de conquistar, acaba virando uma paranóia. Assim, a mulher, de maneira geral, se afeiçoa mais ao malandro, que não se apega, que não se facilmente conquista.

Para ganhar o homem malandro (em todas suas variações. Não me refiro ao vagabundo vestido de terno claro, imagem clicê do malandro), a mulher move céus e terras. Se humilha. Passa por cima de seu orgulho. Passa vexame.

Enfim, se apaixona MUITO MAIS do que pelo pacato cidadão dos bons costumes e boas maneiras.

Celline disse...

Vi minha vida descita em seu texto...rs
Acho que exagerou um pouco quando falou que nós mulheres temos a insegurança como item de fábrica, mas no resto acertou bastante.
Fico pensando que já perdi vários "bons partidos" por estar sempre buscando o mais difícil e, no momento me vejo tentando sair de uma relação complicada, que não me dá nem um pouco de paz.
O problema é que é muito difícil...

Vou passar a ler seus posts... quem sabe me inspiro e vou em busca de um bom moço... rs.
Bjo

Dayne Dantas disse...

Ser dono de si não é coisa fácil, mas você aprende, se quiser. A duras penas, muitas vezes, mas nada vem de graça.

'A certa altura da vida, o choro arrependido pela burrada anunciada deixa de ser comovente para soar ridículo.'

É mulherada, decifra-te ou o outro vem e te devora, meu bem.

Adorei o texto, como sempre

Dayne Dantas disse...

Outra coisa, só um adendo importante. Eu me encaixo no 'bem resolvida' e adoro repassar isso as demais, se pudesse, ajudaria cada pobre coitada alienada que hoje sofre assim como eu sofri, a pensar mais em si, a fazer boas escolhas.
Cometer alguns erros e optar pelo 'que não presta' é aceitavel, vez ou outra, o que não dá pra suportar é viver da migalha do outro sempre.

Ana disse...

É, realmente não é fácil ser mulher. Pior é acreditar nisso e se fazer de vítima, reclamando da falta de oportunidades e excesso de cafagestes, vigaristas e outros adjetivos.
Mas, aquela que não se enquadra neste perfil, aquela que o poder não subiu a cabeça, torna-se o autor deste texto.
Quem falou que viver seria fácil?

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