quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Um tapinha não dói


O estado decidiu interferir de vez na privacidade das famílias de bem. Corre-se o risco de entrar em vigor o invasivo projeto de lei da deputada federal Maria do Rosário, do PT (RS), que altera o Estatuto da Criança e do Adolescente e define como castigo corporal qualquer ação de natureza disciplinar ou punitiva com o uso da força física que resulte em dor ou lesão à criança ou adolescente, o que inclui palmadas e beliscões. É a tal Lei da Palmada, que sujeita os pais a cumprirem pena como criminosos por tentar educar seus filhos.

Viés político à parte, começo pela que me toca. Não sou pai – ainda é um sonho – mas sou ótimo filho e isso já me autoriza a questionar o projeto. Tive educação privilegiada, nunca me faltou segurança, amor, diálogo, mas também poucos e bons corretivos, sendo que nenhum me deixou sequelas, no máximo boas risadas.

Criança é lindo (adolescente nem tanto) mas não deixa de ser inconsequente e sem juízo. Quantas vezes os pais precisam pedir educadamente para que o filho de dois anos não enfie o grampo na tomada até provocar um acidente? Qual o problema do tapinha na mão assim que o moleque – intelectualmente incapaz de entender a gravidade da ordem – fizer esta bobagem pela primeira vez e sentir que desagradou aos pais? O que é mais doloroso e tende a ser mais traumático? O rosto deformado por queimaduras ou a palmadinha corretiva?

Entre os defensores do projeto, há quem diga ser impossível mensurar a extensão do trauma causado pelo castigo, leve ou pesado. Pois prefiro defender a convicção de que numa casa onde sobra carinho e compreensão, não serão moderadas punições as responsáveis por desvios de comportamento. E não há Freud que me convença do contrário. Não consigo acreditar que a memória de um eventual puxãozinho de orelha deixe marcas mais profundas do que os incontáveis momentos de companheirismo e cumplicidade.

Certa feita – eu já tinha doze anos de idade, portanto nada inocente – após pedir pela enésima vez que eu e meu irmão parássemos de brigar, meu pai entrou no quarto com o cinto na mão. Segurou-o pelas pontas e estalou tão forte que ecoou por todo o prédio. Eu já havia tomado umas chineladas e semelhantes, porém naquele dia não fui intimidado pela dor física, mas pela vergonha de levar ao limite da paciência aquela figura sempre terna e compreensiva. A maldade foi minha, não dele. Soube disso naquele exato instante. Foi a última vez que troquei socos com meu irmão e a última que vi o cinto. Hoje seu estalo ecoa gargalhadas.

Experiência e observação me permitem afirmar que o poder dos castigos moderados não subjuga outros valores praticados no lar: confiança, respeito, admiração, entre outros já citados. E quem define a prática destes valores é a própria família. Cada lar abriga uma história de criação transmitida através de gerações que, além de bastante complexa, é sagrada e não diz respeito a ninguém senão a cada família em particular.

Portanto, não se trata de apologia à violência física. Sou entusiasta do diálogo e do voto de confiança – assim fui criado – contudo ninguém, muito menos o estado, tem a capacidade – em minha opinião, nem o direito – de intervir no ambiente familiar de forma tão autoritária e fixar regras de educação camufladas por um discurso politicamente correto que só prejudicará os bem-intencionados. Já existe punição para os pais que espancam os filhos e estes continuarão violentos, com ou sem Lei da Palmada.

As linhas são poucas para uma questão tão abrangente. Quando os governantes começam a meter agressivamente o dedo na vida privada é porque a coisa caminha, definitivamente, para o pior em termos de liberdade civil. Quero ter o direito de educar meus filhos como bem entender, se possível sem palmadas e beliscões, mas errando e acertando de acordo com as minhas convicções.

E se existem casas carentes de patrulha e leis mais rigorosas, estas são justamente o Senado e câmara federal, tão rarefeitos de bons valores e boa educação. Já passou da hora desse pessoal conhecer o cinto do meu pai.

Neizz

2 comentários:

Anônimo disse...

Hahaha, gente eu AMO esse blog. Pena que seus posts não são tão frequentes... Não tenho uma opinião muito formada sobre essa lei, mas achei seu texto (assim como tudo que vc escreve) bem coerente e convidativo à reflexão...

Dayne Dantas disse...

Minha avó dizia que quem não faz seu filho chorar, chora por ele, já meu pai, afirma que 'taca' não resolve nada. 'Taca' pouca não resolve mesmo, não... Kkkkkkkkkkkkkkkk!

Deixando a brincadeira de lado, tenho certeza que nenhum pai ou mãe gosta de recorrer a um tapinha ou um puxão de orelha no filho.
Eles são nossas vidas e é dificil ser rude, porém muitas crianças só aprendem depois do susto e assimilam aquele tapa na mão ao ato do erro cometido pelas mesmas.
É simples e eficaz.

Sou absolutamente contar o constrangimento e a tortura, o que difere totalmente do ato da palmada.

A autora dessa lei não deve saber o que é criar criança, a babá é quem deve sofrer nas mãos das pestes que supondo eu, ela deve ter em casa (isso se tiver).

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