
Demorou mais para atender do que para desligar. “Gente bonita” já não bastava para tirá-la de casa no sábado à noite. Nada contra a beleza, muito pelo contrário (quem não gosta?), mas contra o que fazem dela. E naquele sábado não estava disposta a beber no open bar da futilidade. Enojara-se do gosto de certos drinques sofisticados e elegantes, mas que só lhe causaram dor de cabeça e arrependimento. Alguns permaneciam bonitos, é verdade, mas o tempo realçava ainda mais o jeitão patético de falsificação barata.
“Hoje não, quem sabe na próxima, com mais paciência.” Paciência, essa era a palavra. Mas a solidão cutucava, o corpo clamava e o coração mais ainda. Tem dia que é f...! Diante deste pequeno teste, lembrou-se de como vencera os mais recentes: ouvindo a si mesma. Foi para o quarto e colocou a música favorita quinze vezes. E esta era a resposta. Queria música e apenas música. Ligou para a amiga certa e logo arrumou o que fazer. Não importava se estaria cheio, vazio ou ao menos quem estaria. E foi com a amiga e o namorado. Noite agradável, som de qualidade e pessoas. Sortidas, espontâneas, autênticas. Dispostas a interagir, conhecer, experimentar, enfim, divertir e não desfilar. Satisfazer desejos individuais e não cobranças sociais.
Impressionante como a liberdade praticada até mesmo nas escolhas mais banais – um tolo sábado à noite – cria à nossa volta uma energia alegre, positiva. O contagiante prazer de ter feito a coisa certa. E no instante que, absorta pela música, vivia a sintonia perfeita entre o corpo e a mente extasiada, avistou o tal sorriso escancarado e cheio de promessas. Nada de paixão à primeira vista, frios na barriga ou outros clichês mentirosos. Apenas intuição e empatia – e isso foi mais do que suficiente. Era conhecido, porém estava acompanhado. Foi até lá, cumprimentou ambos, sorriu e conversou brevemente. Passou o recado sem passar vulgaridade. “Educação e respeito só recebe quem pratica.”– pensou. Existe um enorme abismo entre o charme e a vulgaridade onde milhares se suicidam a cada final de semana. Voltou a curtir.
Passou os dias seguintes desejando e imaginando. Pressentiu e aconteceu. Atendeu, questionou, indagou novamente, botou fé e saiu. Gostou, beijou, esperou, transou, “nem tão bom assim”, retransou, gozou, ouviu, decidiu e namorou. Cumpriu suas promessas de mudança e correção dos erros passados. Em vez de cobrar que ele fosse diferente, decidiu que ela seria diferente. Moldou-se uma pessoa melhor, antes de martelar os pequenos defeitos do outro. O acordo funciona para os dois lados, ele também se esforça.
E hoje, toda vez que ele sorri, ela sente que valeu a pena. Porque aquele sorriso, nascido e criado tão perto dos mesmos prazeres e mazelas, não a julga. Não liga para o seu passado porque entende que este não esconde nada além de momentos de fraqueza, vacilos deliciosos e tentações mal experimentadas às quais todos estão sujeitos, inclusive ele, dono de experiências bem parecidas vividas ali, dentro do mesmo contorno. Estão juntos pelo que são e pretendem ser. O passado é um saco de risos. Agora noivos. Unidos pelo crescimento, pela sintonia de atitude, pelos valores familiares e sonhos de maturidade, não de consumo. A grana anda curta, mas as contas estão em dia e o sexo mais ainda.
Seguem o exemplo da sua própria história. Aquele sábado representa a certeza de que o amor e a felicidade são recompensas inevitáveis quando nos mantemos fiéis ao que há de melhor dentro de nós em todas as nossas decisões, não importa o tamanho dos sacrifícios exigidos pelas escolhas e mudanças. É uma questão de paciência e fé no bem. Por fim, pediu-me que não desse muitas pistas sobre sua identidade, mas se eu a conheço bem (na verdade nem tanto), guardará estas páginas em um lugar especial para ler nos momentos mais íntimos e solitários, sentindo por dentro um aperto bom e indefinido, mais ou menos ali, entre o orgulho e a esperança.
Neizz

2 comentários:
Bruno,
Estava esperando você postar o final da história para comentar. Você superou as minhas expectativas pois essa história é muito linda e seu texto tem a densidade exata ao tema: delicado e desafiador tal como é o desabrochar de uma mulher!
Este despertar feminino é um processo essencial para todas nós. Como um rito de passagem para a verdadeira vida adulta. O primeiro sintoma dele é exatamente a inquietude diante a banalidade e superficialidade das relações sociais. Outro sintoma é como a opinião da "galera" deixa de ser importante na mesma proporção que reconhecemos os verdadeiros amigos e companheiros de caminhada. E por assim vai. Mas, para mim, o que coroa esta transição é a apropriação do próprio destino a partir de um grito de independência real. Ou seja, se olhar no espelho sem máscaras e reponder para si mesma:
"Estou feliz com minha vida e minhas atitudes?"
"O que eu tenho feito por mim mesma?"
"Minhas atitudes são reflexos das minhas escolhas ou da necessidade de ser Cool?"
"Trabalho no que me realiza ou pelo dinheiro (status)?"
São tantas questões que nos assaltam nesta fase que poderia discorrer sobre eles por páginas sem fim! E no final a reflexão é a mesma: É preciso se enfrentar e se assumir para recomeçar.
Desejo boa sorte a todas que estejam neste momento ou tenham passado por ele e estão batalhando para perseverar!
Para as que ao ler isso pensarem assim: "Que babozeira é essa?" desejo sorte também porque cada um tem seu momento então viva o seu intensamente.
Acredito que os garotos passem pelos mesmos questionamentos em algum momento na vida e espero que aproveitem a oportunidade para repensar suas atitudes.
Mais uma vez, Bruno, obrigada por nos presentear com sua sensibilidade;
Abraços,
Adri
Oi Bruno!
Conheci o seu blog através de uma amiga, tb sou de BH e confesso que gostei muuuito dos seus textos... Palavras tão raras num mundo que anda tão superficial...
Tenho 20 anos e um MUNDO de inquietudes dentro de mim! Seus textos me abrem os olhos pra perceber que esquecer da essencia (minha e das coisas) é sempre seguir pelo caminho equivocado...
Porque vc n posta com mais frequencia... Beijosss, tudo de bom!
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