
Não pedirei licença ou desculpas por terminar assim, publicamente. Nossa relação sempre foi muito aberta – temos segredos, é verdade – mas já que é uma decisão sem volta, não vejo problema em compartilhar com o mundo.
Desde que a conheci, aos 13 para 14 anos, a sintonia foi imediata. Não houve sequer um flertezinho inocente, ou aquele frio inseguro na barriga. Viciei-me no seu encanto, seu jeito misterioso, como se guardasse sempre uma surpresa para quando nos encontrássemos. Hoje – de fato há algum bom tempo – eu vejo que a maioria absoluta dos nossos encontros foi bem previsível e por vezes descartável. E a verdade é que eu sabia, mas não queria acreditar na sua mesmice. Eu era um dependente da sua felicidade efêmera, falsa e não estava nem aí. Tudo que importava era vê-la e participar da sua vida. Lembro-me de que em certo momento eu tinha certeza de que ninguém jamais nos separaria, mesmo sabendo que você nunca foi só minha. E olha que eu tentei esquecê-la. Tive algumas namoradas, mas que acabaram sendo traídas. Por melhor que estivesse o namoro, eu inventava desculpas ou terminava tudo, só pra gente ficar junto.
Entre idas e vindas, fiz muito mais por você do que por algumas delas. Respeitei e procurei entender todas as suas variações de humor, chiliques e manias. Fui do rock ao axé, passando pelo pagode, eletrônico e mais alguns modismos que você nunca parou de inventar. Teve até aquela época que cismou com essa coisa de jiu-jítsu, pancadaria e adorava uma confusão. Aliás, personalidade nunca foi o seu forte. Essa indelével mania de experimentar as coisas só porque alguém sugeriu, testar os limites, parecer loucona, mas no fundo não passava de uma bobona perdida e fútil. E eu lá, fiel, fazendo de tudo pra achá-la a coisa mais bonita e sexy do mundo, mesmo quando estava com aquele jeitão fraco e desanimado. A miopia voluntária típica dos carentes.
Meus pais riam e ao mesmo tempo se preocupavam (custaram a nos aceitar, lembra?) já que por sua causa eu gastei muito dinheiro e corri muitos riscos. E eles não sabem nem a metade das besteiras que fiz pela gente. Viagens insanas, porres ridículos, provas perdidas no colégio, faculdade e tantas outras parvoíces. Sem falar nas mulheres que passaram pelo meu caminho e eu rejeitei ou nem cheguei a notar porque meus olhos e hormônios lhe pertenciam.
Mas é vero também que me ensinou muita coisa e a respeito por isso. Suas trairagens fizeram-me mais cínico e desconfiado. As rejeições – algumas bem duras – moldaram-me um cara mais cascudo. Ainda tenho amigos que você me apresentou e não posso esquecer as risadas e aventuras carregadas de adrenalina. Foi bom, muito bom, mas já deu.
Encontramo-nos outro dia e a notei meio estranha. Esquisita, com cara de derrota. Foi quando senti que devia lhe escrever. Você já deve saber do que se trata, afinal faz anos que nossa relação esfriou, mas achei que merecia um fechamento oficial e sincero. Bom, aí vai: o que acontece, doa a quem doer, é que mudei de lado. Essa minha tendência nunca foi novidade, já que durante muito tempo tentei conciliar nossa relação com esta outra vida – que sempre me atraiu – mas você era a prioridade. Agora não. Ele me faz muito feliz. Só de olhar, já fico mais calmo e centrado. Estou mais magro inclusive, disposto. Estamos nos dando muito bem há alguns anos já, mas recentemente a coisa ficou séria.
Vez ou outra, penso na gente, falo o nosso dialeto particular, porém é só isso. Não sinto saudades. Ainda vamos nos ver outras vezes, já que temos amigos em comum e quando estamos todos juntos, é sempre divertido. Só não espere a mesma empolgação, o mesmo desejo. Minha mente, corpo, energia e coração pertencem a outro. Porque agora, minha amiga noite (posso chamá-la de amiga?), eu amo o dia e pretendo ficar com ele pra sempre.
Neizz