sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Mudança.

Moçada, o blog tá parado porque estou agilizando umas mudanças, inclusive de hospedagem, e se tudo der certo, também de novos formatos para os textos. Torçam por mim.

Abs

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Feliz ano novo. De novo.

Você que almejava perder 10 quilos e terminou ganhando três. Você que até hoje não se ligou que inexiste tal coisa chamada projeto verão. Ninguém fica com o corpo legal malhando de outubro a dezembro.

Alô, você que pensava em se desconectar um pouco, mas perdeu as melhores risadas por não largar a praga do smartphone e ficou só enchendo o saco para repetirem o caso que deu vazão à gargalhada. Você que trabalhou menos do que deveria, ou poderia, porque de cinco em cinco minutos interrompeu as tarefas para ver se alguém curtia suas indiretinhas cretinas no Facebook, o videozinho sem graça, ou a frase pronta do Caio Fernando Abreu.

Você que leria um livro por mês e não deu conta de chegar ao terceiro. Faltou tempo. A propósito, como anda a vida amorosa da Luana Piovani e quem está pegando a Susana Vieira? Você que prometeu ser mais frequente ao teatro, todavia foi somente duas vezes ao cinema, uma delas pra ver filme do Selton Melo porque “os filmes dele sempre são bons”.

Você que fez campanha para o Lula se tratar no SUS sem saber direito o que é câncer, Lula ou SUS. Assinou petição pensando em barrar o projeto da hidrelétrica de Belo Monte, porém é incapaz de apontar o Pará no mapa. Negritou sua indignação ao divulgar a marcha contra a corrupção e quando chegou o dia, preferiu curtir ressaca. Você que novamente foi levado pela onda, que apenas seguiu o fluxo.

Você que, para variar, resolveu se entregar para o tanquinho e no final desaguou como uma mangueira sem dono esparramada na calçada. Ou que traiu o cérebro e o caráter da sua mulher para transar com a bunda burra que te mandou uma mensagem erótica inoportuna no seu aniversário. E agora está sem cérebro, sem caráter e com medo de bundas.

Você que ainda respira fundo e faz o nome do Pai antes de bater o ponto, lutando brava e dignamente para engolir a inveja do amigo que está de mudança para aquela precária cidade praiana onde dará aulas de ioga para ganhar metade do seu salário. Você que faria trabalho voluntário, mas contentou-se com algumas moedas no sinal.

É, você falhou. A má notícia é que não foi a última vez. A boa notícia é a mesma. Traz também certo alívio saber que você não está sozinho, bem pelo contrário. Falhamos todos. Se isso não precisa ser desculpa para acomodação – use com moderação – contudo ajuda no autoperdão e ele é fundamental para o recomeço. Vamos pegar leve com a gente. A culpa é a mãe das metas inalcançáveis, da punição camuflada em objetivos e também de novos erros. Sonhar sonhos possíveis ou traçar planos realizáveis talvez não seja falta de ambição, mas sinal de autoconhecimento. Cada um que caminhe no seu próprio ritmo e defina o que realmente importa acontecer – ou não se repetir em 2012. A única certeza é que, nem os lentos, nem os apressados, conseguirão cumprir, mudar e conquistar tudo exatamente da forma que imaginarem para o próximo ano. Com fé e movimento, algumas coisas darão certo e tomara que valham o ano.

Outras promessas serão postergadas para depois do Carnaval, quem sabe Semana Santa, e então ficarão perdidas em meio à falta de planejamento e organização, derrotadas pela preguiça, pela falta de tempo ou pela desculpa da falta de tempo, ou ainda interrompidas para as merecidas férias e nunca mais retomadas.

E aí em dezembro teremos outra chance de entender e aceitar que a vida por aqui não teria a mínima graça, nem faria o menor sentido, se não fôssemos esta teimosa e abençoada imperfeição.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Vida de gado


E aí a leitora me pergunta o que há de errado com o mundo, homens e relacionamentos e eu respondo: lógico que não sei, mas talvez juntos possamos refletir algumas situações.

Vários dias na semana, passo em frente a uma conhecida balada aqui de Belo Horizonte e não tem como fazer outra analogia da paisagem feminina a não ser um enorme rebanho a caminho do abate. E por mais machista ou misógino que possa soar, está vindo de um cara que já passou dos trinta e se esforça para ter algum controle sobre os hormônios, daí essa comparação estritamente analítica. Porém, para o moleque de vinte e três, vinte e quatro ou mesmo para os velhos garanhões empedernidos, a leitora pode ter certeza que não se trata apenas de analogia crítica, mas sim da agradável e excitante sensação de estar realmente diante de um matadouro. Todavia não é exclusividade deste local tampouco ocorre somente à noite.

Dá para culpar os homens? Por natureza, somos pouquíssimos inteligentes no que se refere ao sexo – na maioria das vezes nem tentamos – e com a força que as mulheres andam fazendo pra instigar e banalizar a sexualidade, fica mais difícil ainda exigir postura de príncipe encantado. Em tempo: nada justifica mau-caratismo, excessos ou violência. Mas a mulher não pode estranhar ser tratada como um pedaço de carne quando ela própria é a primeira a fazer esta opção. Para piorar, os artifícios variam muito pouco ou quase nada – caras e bocões, risos extrapolados, minirroupas, gírias irritantes, peitos rebeldes – o que faz com que a padronização apenas reforce a ideia da boiada.

Tornou-se corriqueira a prática deste distorcido conceito contemporâneo de sensualidade, o uso do corpo como única e supostamente infalível arma de sedução. Tremendo engano. Fica a dica: quando nós, homens – facinhos de dar pena – paramos para ver as paniquetes dançando na TV, a última coisa que passa na cabeça é namorar alguma delas. E mesmo que sejam moças legais – por que não? – no exato momento em que elas esfregam a bunda na tela, com certeza não estamos sonhando com uma viagem para a Disney em família.

Então, a menos que o objetivo seja ser descoberta por um produtor de reality show (que inocência a minha, quem sabe não é essa a intenção?), todos estes exageros na tentativa de parecer sexy e prender a atenção nada mais são do que provas da total falta de personalidade, estilo e sagacidade. Em uma palavra: sensualidade, que nada mais é do que o uso espontâneo e inteligente destas qualidades reunidas - bingo! E não adianta objetar que “isso todo mundo sabe”, porque na prática a coisa não anda funcionando bem assim. Também não faz sentido ter esta consciência e, na hora que a autoestima despencar ou a carência gritar, apelar para a sexualidade gratuita e nada original. Já escrevi antes: é quando a mulher abre a boca que o cara sente até onde vai o interesse. Esta é a primeira impressão. Outras partes do corpo podem até funcionar, mas o coração corre o risco de broxar logo ali, e uma brochada às vezes demora para ser esquecida. Porque não há coxa, bunda ou peito que compense a preguiça do sotaque afetado entregando a falta de cultura, inteligência e defenestrando ideias fracas e fúteis nesse maldito miguxês anasalado. Pode até deixar o telefone, mas, para evitar a conhecida fadiga, é melhor conformar com o fato de que tudo não passará de uma, duas ou três noites, dependendo da necessidade e paciência do guerreiro. A cena é triste, mas é real.

Quem sai ganhando é a “baranguinha sem sal” que tempera a vida ao gosto dela, sem seguir receitas porque prefere seduzir com seu próprio jeito de dançar, falar, pensar e agir. Que se recusa a fazer da vida seu próprio Big Brother, disputando audiência a qualquer preço. Espero ter colaborado com a leitora (me pediu sigilo), só não me peça para falar sobre as fraquezas masculinas. São tão antigas e tolas que algumas mulheres poderiam compreender facilmente, se não perdessem tanto tempo comparando o tamanho do silicone.

Neizz

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Amigos?


Não pedirei licença ou desculpas por terminar assim, publicamente. Nossa relação sempre foi muito aberta – temos segredos, é verdade – mas já que é uma decisão sem volta, não vejo problema em compartilhar com o mundo.

Desde que a conheci, aos 13 para 14 anos, a sintonia foi imediata. Não houve sequer um flertezinho inocente, ou aquele frio inseguro na barriga. Viciei-me no seu encanto, seu jeito misterioso, como se guardasse sempre uma surpresa para quando nos encontrássemos. Hoje – de fato há algum bom tempo – eu vejo que a maioria absoluta dos nossos encontros foi bem previsível e por vezes descartável. E a verdade é que eu sabia, mas não queria acreditar na sua mesmice. Eu era um dependente da sua felicidade efêmera, falsa e não estava nem aí. Tudo que importava era vê-la e participar da sua vida. Lembro-me de que em certo momento eu tinha certeza de que ninguém jamais nos separaria, mesmo sabendo que você nunca foi só minha. E olha que eu tentei esquecê-la. Tive algumas namoradas, mas que acabaram sendo traídas. Por melhor que estivesse o namoro, eu inventava desculpas ou terminava tudo, só pra gente ficar junto.

Entre idas e vindas, fiz muito mais por você do que por algumas delas. Respeitei e procurei entender todas as suas variações de humor, chiliques e manias. Fui do rock ao axé, passando pelo pagode, eletrônico e mais alguns modismos que você nunca parou de inventar. Teve até aquela época que cismou com essa coisa de jiu-jítsu, pancadaria e adorava uma confusão. Aliás, personalidade nunca foi o seu forte. Essa indelével mania de experimentar as coisas só porque alguém sugeriu, testar os limites, parecer loucona, mas no fundo não passava de uma bobona perdida e fútil. E eu lá, fiel, fazendo de tudo pra achá-la a coisa mais bonita e sexy do mundo, mesmo quando estava com aquele jeitão fraco e desanimado. A miopia voluntária típica dos carentes.

Meus pais riam e ao mesmo tempo se preocupavam (custaram a nos aceitar, lembra?) já que por sua causa eu gastei muito dinheiro e corri muitos riscos. E eles não sabem nem a metade das besteiras que fiz pela gente. Viagens insanas, porres ridículos, provas perdidas no colégio, faculdade e tantas outras parvoíces. Sem falar nas mulheres que passaram pelo meu caminho e eu rejeitei ou nem cheguei a notar porque meus olhos e hormônios lhe pertenciam.

Mas é vero também que me ensinou muita coisa e a respeito por isso. Suas trairagens fizeram-me mais cínico e desconfiado. As rejeições – algumas bem duras – moldaram-me um cara mais cascudo. Ainda tenho amigos que você me apresentou e não posso esquecer as risadas e aventuras carregadas de adrenalina. Foi bom, muito bom, mas já deu.

Encontramo-nos outro dia e a notei meio estranha. Esquisita, com cara de derrota. Foi quando senti que devia lhe escrever. Você já deve saber do que se trata, afinal faz anos que nossa relação esfriou, mas achei que merecia um fechamento oficial e sincero. Bom, aí vai: o que acontece, doa a quem doer, é que mudei de lado. Essa minha tendência nunca foi novidade, já que durante muito tempo tentei conciliar nossa relação com esta outra vida – que sempre me atraiu – mas você era a prioridade. Agora não. Ele me faz muito feliz. Só de olhar, já fico mais calmo e centrado. Estou mais magro inclusive, disposto. Estamos nos dando muito bem há alguns anos já, mas recentemente a coisa ficou séria.

Vez ou outra, penso na gente, falo o nosso dialeto particular, porém é só isso. Não sinto saudades. Ainda vamos nos ver outras vezes, já que temos amigos em comum e quando estamos todos juntos, é sempre divertido. Só não espere a mesma empolgação, o mesmo desejo. Minha mente, corpo, energia e coração pertencem a outro. Porque agora, minha amiga noite (posso chamá-la de amiga?), eu amo o dia e pretendo ficar com ele pra sempre.

Neizz

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Para evitar a fadiga


Não finge que não curtiu. Não finge que não fez planos. Se você não assume os sonhos, aí mesmo que eles não se realizam. Sim, você tem mesmo que se preservar. Ninguém quer outra decepção, outro sofrimento.

Mas sofrer é mais digno do que fingir, ser uma mentira. Quando você se esforça para parecer indiferente, a única coisa que esconde são as suas qualidades e aí as chances de dar certo ficam ainda menores. Porque só bobo cai nessa sua conversinha autossuficiente. O inteligente, do tipo que você quer e vive dizendo que são raros, percebe logo de cara que você não é essa fortaleza toda. Que está louca pra trocar esse salto maldito e essa vodca com energético por um casal de taças de vinho, um moletom da Disney surrado e uma pantufa ridícula de sexta-feira à noite. Ele só não ri na sua cara porque, como é raro, além de inteligente é também educado. E pode até ser que essa sua falsa marra transforme-se num desafio bacana, mas se exagerar na dose, a antipatia e a fraqueza somente despertarão preguiça e um pouquinho de pena. E lá se foi outra boa chance em mil. Perdeu.

Tem mais. Fingir demanda muita energia e você já anda com pouca. Academia, trabalho, concurso, salão, TPM, desconversas no Facebook e os penosos chás semanais: de panela, fralda, casa, de cadeira etc. E aí o tempo que sobra você vai gastar ensaiando poses e treinando diálogos para esconder o que realmente quer?

É melhor evitar a fadiga, mas mantendo o movimento. Passo a passo, beijo a beijo. Um SMS depois do outro. A honestidade é sempre o melhor caminho. Dizer o que sente, o que já sentiu e mesmo o que tem medo de sentir. Falar a verdade dá menos trabalho do que segurar o coração. Você nunca conseguiu, não vai ser dessa vez. E depois tem a pele, essa maldita, mais irresponsável ainda que o coração. Porque se ele é fraco e bobão, ela é sem vergonha, safada e sem juízo. Numa boa, é muita coisa pra vigiar e reprimir.

Então a saída talvez seja dar a real, sem frescura. Porque quem nasceu para respeitá-la vai fazê-lo desde sempre. Quem foi feito para a merecer vai ralar para entender cada momento de dúvida, seus receios e razões. E vai saber a conquistar, vai soltar suas amarras e mostrar que o passado não tem esse nome por acaso. E, se ele não quiser tentar nem dar o tempo de que você precisa, então é possível que não a mereça. E sendo assim você não vai querer, certo?

Bonita teoria, né? As chances de funcionar? Mínimas. Uma em mil pode ter sido exagero, mas é comum ter essa impressão. Se fosse fácil ou tivesse regras como prega a autoajuda de prateleira de supermercado, estaríamos todos comprometidos e realizados. Porém a única certeza é que se não tentar, não vai. Tente. Permita-se. Quando faltar aquele empurrãozinho, lembre-se que você no mínimo precisa ser justa. Não é certo que um novo horizonte pague pelo erro do otário anterior. E devagarzinho fica mais fácil perceber se vale a pena ou se é somente outro otário. Aí é só parar onde a sua consciência a levar, lavar as mãos e bola pra frente. Quem perdeu foi ele. Dói muito menos quando a gente sabe que fez a nossa parte.

Vai na fé. Você merece, o corpo precisa e um coração que não acelera ou passa uns sustos de vez em quando acaba enferrujando. Só não finge que leu até a metade. Não finge que não é com você.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Boa noite, Cinderela


Nunca fui fã de Amy Winehouse, apesar de reconhecer seu talento. A sua tentativa de fazer um show em São Paulo foi das coisas mais patéticas que já presenciei em se tratando de eventos musicais.

Ainda sim, senti aquele leve baque de tristeza e pena com a notícia. Sentimentos que se esvaíram logo que acessei a internet para ler a inevitável resenha virtual, naturalmente concentrada no velho debate (por falta de melhor palavra que faça justiça às discussões on-line) sobre drogas.

É nesse momento que a tristeza dá lugar ao desapontamento e fica difícil fugir do assunto. Continuamos a pautar a vida no falso moralismo e preconceitos incutidos em nossa mente sabe lá a história por quais motivos e interesses. Não chega a ser nem engraçado ver os bêbados inveterados amaldiçoando os “drogados” com austeridade e consciência plena de que o álcool que eles tanto adoram não é droga. Pedem porrada, prisão e a saideira. E não enxergam o óbvio: discriminação e repressão ao usuário nunca resolveram o problema. Não cabe discussão, é um fato estatístico triste. Tão triste quanto ver uma sociedade – a partir de agora, mais especificamente, a brasileira – encher o peito (e os bolsos) para dizer-se cristã, mas virar as costas ou sentar a borracha no viciado como se este fosse bandido apenas por usar suas drogas à surdina e não no bar.

É a mesma lógica (?) que faz o pai repreender o filho ao encontrar maconha na gaveta e depois irem ao boteco fazer as pazes, deixando a seguinte mensagem: você pode usar drogas, desde que sejam as legais, as que eu uso. Esse pai não é mau sujeito, é também vítima da desinformação manipulada. Quando ele nasceu, os tabus e as regras políticas e econômicas já estavam estabelecidos de acordo com os interesses de quem os inventou e usou o poder para consolidar o status quo conveniente, sustentado, entre outros artifícios, por clichês absurdos. Como aquele que diz que a maconha é porta de entrada para outras drogas. Mentira. A porta que leva às drogas é a de casa. Assim que ela é aberta em direção à rua, o filho está livre para experimentá-las. E aí é tentar ficar de olho (tentar é o máximo, não se iludam) e rezar para que ele não se vicie em nenhuma delas, ilícita ou não.

Melhor seria se ele tivesse a informação precisa e honesta para fazer suas escolhas com mais consciência. Mas ainda tentam controlar a juventude através da cultura do terror e de regras autoritárias que o jovem anseia quebrar. É tudo que ele quer: transgredir, chocar, experimentar ou fugir dos problemas sobre os quais não tem consciência. E talvez Amy tenha desejado tudo isso, mas quem é o bêbado de ressaca no twitter para julgar a opção dela? Por acaso ele não está correndo riscos também?
São óbvias as diferenças entre os tipos de droga e é natural querer distância daquelas que nos assustam ou não nos agradam. Afinidade é base das relações em todas as esferas sociais. Mas achar que o vício do outro define o caráter só por não satisfazer nosso gosto pessoal e que por isso ele merece desprezo ou cadeia é assumir a hipocrisia que impera desastrosamente no tratamento desta questão.

Seria ousado propor aqui qualquer solução definitiva – legalizar tudo, por exemplo –mas estou tranquilo em afirmar que, do jeito que está, está errado. Fatos e números mostram isso. Que cada um pague por suas escolhas, mas que estas sejam feitas em um contexto social mais justo e verdadeiro, com mais informação – e tratamento se for o caso – e menos cassetetes políticos, pelo menos no que diz respeito ao usuário.

Se o destino de Amy seria diferente em outro cenário, menos repressor e mais verdadeiro, nunca saberemos. Contudo, a sua morte e de tantos outros anônimos todos os dias deixam claro que é preciso repensar, debater e tentar algum avanço em vez de ficarmos submissos aos interesses dos urubus reacionários e moralistas. Pelo menos dessas drogas, Amy Winehouse está livre. Boa noite, cinderela.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Manés ou Fenômenos


É possível enxergar nuances da alma de um povo pela maneira como ele trata seus ídolos. No dia 7 de junho, Ronaldo despediu-se da seleção. Emocionante, mas merecia mais. O que me fez analisar que a relação dos brasileiros com o craque durante sua carreira – encerrada em uma festa fria e sem brilho – evidencia um dos aspectos mais negativos da nossa moral: a incapacidade de aceitar, admirar e conviver com o sucesso e a riqueza.

Em seus tempos de extraterrestre, Ronaldo flertou com a unanimidade. Era um titã inquebrável, invencível. A grande esperança da Copa de 98. Sabe-se lá o porquê, passou mal à véspera da final. Perdemos. “Ganha milhões pra jogar bola e ainda “pipoca” na hora H?”, ouvia-se à época. O ressentimento pela derrota enganchava-se à situação financeira do herói e o transformava em vilão. Como se o corpo entendesse a linguagem dos negócios e nas veias corressem cifrões, em vez de sangue. O fenômeno virou amarelão para logo em seguida contundir-se gravemente. Daí passou a bichado, podre, ganhando uma fortuna para não fazer nada, quando de fato sofria com dores e incertezas angustiantes em hospitais e salas de fisioterapia. Nesse meio tempo, sentiu-se forçado a desfazer-se da Ferrari que comprou e exibiu no Fantástico, tantas foram as críticas. Não joga, não faz gol e ainda nos humilha desfilando de carrão? Não pode.

Recuperou-se e nos deu a Copa de 2002. Foi tema de campanha do governo e teve o corte de cabelo imitado por milhares de crianças Brasil afora. Seus milhões já não eram mais um agravante. Estava perdoado. Anos depois, contundiu-se novamente e sucumbiu aos apelos da gula e da luxúria. “Como pode, milionário, era pra ter qualquer mulher do mundo e vai parar no motel com travestis?”. Realmente, foi uma escolha de péssimo gosto e pouco inteligente pelo risco que corria. Mas desde quando impulsos sexuais reconhecem classe social? O que o dinheiro tem a ver com fantasias ou fetiches? Eis que Ronaldo novamente se recupera, volta a jogar com razoável eficiência, mas agora não tem mais jeito. Para alguns brasileiros, é o gordo, balofo, pegador de travestis. Sua imagem ainda é forte, rentável, o fã clube é enorme, mas o Brasil nunca o amou incondicionalmente.

Ainda na esfera futebolística, temos a história de Garrincha. Como Ronaldo, Mané foi um gênio da bola, trouxe- nos alegrias e encantou o planeta. Fora de campo, era um desastre, um péssimo exemplo. Terminou a carreira e a vida de forma melancólica. Alcoólatra, irresponsável, morreu corroído pela bebida, deixando os filhos na miséria. E mesmo assim veneramos e preservamos Garrincha incondicionalmente, o anjo imaculado sobre o qual só cabem elogios.

Mas, se os dois foram craques, venceram e tropeçaram, por que a diferença no tratamento? Está na cara. Garrincha tinha o que gostamos de chamar de a cara do povo brasileiro. O sorriso brejeiro, o jeito de fome, de vira-lata simpático, o coitadinho carente de cuidados e bolsa-família. Ronaldo, apesar de seu carisma, é um ídolo abastado, que não precisa de piedade e por isso somos tão cruéis com ele.

Porque ainda preferimos a miséria à fortuna. Cultivamos um lado senzala da alma que enxerga na riqueza uma afronta, no rico um opressor e no lucro um pecado. Prejulgamos e condenamos os afortunados, vigiando e tripudiando em cima de seus tropeços. Torcemos pela queda dos bem-sucedidos – e assim nos sentimos menos medíocres – mas gostamos de acariciar e exaltar nossa miséria, como se só existisse felicidade e dignidade nos programas da Regina Casé. Temos orgulho do nosso sorriso sem dentes e uma raiva velada de carrões e jatinhos. Vale a reflexão. Vivemos um momento privilegiado e não podemos perder a oportunidade. Desde que todos tenham acesso ao básico – saúde e educação – qual o problema em perseguir a riqueza de forma honesta? Tem pra todo mundo. Mais do que estradas e aeroportos, precisamos desenvolver a mentalidade, tirar os dois pés da senzala, ou travaremos sempre nesse ranço servil. Está na hora de decidirmos se seremos um Brasil de fenômenos, ou um Brasil de manés.

Arquivo do blog